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Crônica do Sebastião Milagres - Da Roça ao CVV: A Herança de Dona Rosa ( final)

Crônica do Sebastião Milagres - Da Roça ao CVV: A Herança de Dona Rosa ( final)
"Mãe é o primeiro CVV da nossa vida: o porto seguro onde toda voz encontra abrigo."
Encerrando as memórias das Comunidades Eclesiais de Base, volto os meus olhos para a raiz do meu afeto.
Minha mãe Maria Rosa tinha a mesma generosidade do Príncipe Michkin, personagem do livro: " O Idiota" de Dostoiévski, que foi tachado de "idiota," por ser bom. Criada na roça, mal sabia escrever o próprio nome. Ela tinha a mesma bondade de escutar sem julgar, que o CVV faz hoje através do telefone 188.
Tenho orgulho de ter herdado dela, essa empatia para com os mais necessitados. Nunca me esqueço de que na minha infância ela sempre me dizia:" meu filho tenha sempre dó do pobre." Naquela época os mendigos batiam à minha porta com um saco nas costas pedindo esmola, ou mantimentos. Mesmo sendo de uma família humilde mas sem miséria, eu corria até a cozinha, enchia a caneca com que tínhamos e o entregava.
Graças a Deus sempre vivi rodeado de pessoas altruistas: minha mãe, meu irmão e, para completar a minha ventura de ter gente iluminada por perto, casei-me com a Nair personificação da bondade.
Seguindo a cartilha de minha mãe e mais os ensinamentos de amor ao próximo das CEBs, tornei-me voluntário no CVV. (Centro de Valorização da Vida) Infelizmente, não aguentei e não fiquei muito tempo. Senti e ouvir o sofrimento humano na pele foi pesado demais para mim. Tive momentos em que me revoltei contra a dor do mundo, mesmo contra a minha vontade. Imitei Caim, o emblemático personagem do escritor português José Saramago no seu livro homônimo, que ousou interpelar o mutismo do céu .
Foi ali no silêncio daquela linha telefônica que desabei. Percebi
que a caneca que eu enchia de mantimentos na infância, não era suficiente para aplacar a fome de alma daquelas pessoas que precisavam de apoio emocional.
Para ouvir tanta dor sem sangrar, eu precisaria de uma couraça que nunca tive. Minha mãe Dona Rosa me deu olhos para ver a miséria do mundo com um coração exposto, pulsando do lado de fora do peito. Ela só esqueceu de me ensinar a não chorar o choro dos outros.
Desliguei- me do Centro de Valorização da Vida não por falta de amor, mas por excesso dele.Carregando a mesma impotência diante do invisível, mas com uma certeza mansa. Enquanto houver no mundo a memória de Dona Rosa e o abraço do meu anjo Nair, o menino que estendia a caneca cheia de mantimentos na infância, continuará vivo em mim. Indignado diante das injustiças,e das desigualdades humanas, mas incapaz de deixar de amar o pobre.
Sem querer ser narcisista, até hoje continuo o mesmo Tiãzinho da caneca de lata com asa.
" Na dúvida, fique ao lado dos pobres."
( Dom Pedro Casaldálica)
"Se querer um mundo onde o trabalho seja garantido e a fome seja extinta é ser comunista.
Pois a minha única ideologia é esta que defende a vida e a dignidade humana acima de todas as coisas." "POIS ENTÃO SOU COMUNISTA!"
Próxima crônica,:" Por que visto minhas Crônicas de Gala."

Sebastião Milagres, Escritor,
Filósofo, ex- professor de xadrez
aposentado, Conselheiro
do Fórum Municipal Cultural de
Santana de Parnaíba. Autor dos livros
Xeque-Mate no Inferno -VII-A
e Subjetivos: Fragmentos
da minha alma

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