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Crônica

Eles balançaram no ar e fincaram raízes. Por Sebastião Milagres

Eles balançaram no ar e fincaram raízes. Por Sebastião Milagres
Cronista que vira juiz, perde a cônica e a alma.

Há três semanas li uma matéria no Informativo do IHG- Instituto Histórico Geográfico- de São João Del Rei-MG, onde pleiteio uma vaga de sócio correspondente.
Lá estava o dia em que os sinos dobraram em sinal de luto e intercessão. Não foi por bispo, tampouco por barão.Só sei que foi no ano de1833, no Morro da Forca, hoje batizado de Bonfim, na minha cidade natal, São João Del Rei-MG.
No qual todas as noites, o Urutau-mãe-da-lua,chora como lamento pelos escravos que foram enforcados naquele local. Não pelo roubo de galinhas, na fazenda dos Junqueiras em Carrancas. Foi pelo legítimo desejo de abreviar o 13 de Maio de 1888. Foi considerada a maior rebelião do sudeste imperial.
Resultado trágico ; nove membros da família senhorial mortos pelo escravo Ventura e seus seguidores. Eram provavelmente da etnia nagô.
Um.povo .inteligente e altamente urbanizado na África.
Com toda certeza esses pobres cativos amassaram o barro que virou taipas.que virou parede, que virou casa de Deus que não os deixaram entrar.Pés presos por grilhões, Pés que subiram o andaime da São Francisco.
As mesmas torres que eles erqueram pedra sobre pedra, dobraram os sinos em sinal de luto quando foram enforcados. Ironia que só o Brasil sabe escrever, com sangue em vez de tinta.
Duas rezas rasgaram o mesmo dia.
A sinhá pensou como Durkheim: Deus vai manter a ordem, o mundo como deve ser.
A escrava pensou como Sartre: Deus vai me dar a náusea, a escolha do direito de criar o mundo que não existe.
O céu ouviu as duas . Escolheu o sangue.
Próxima: A Coroa é Negra e reza dançando


Sebastião Milagres, Escritor, Filósofo, ex- professor de xadrez aposentado, Conselheiro do Fórum Municipal Cultural de Santana de Parnaíba. Autor dos livros Xeque-Mate no Inferno -VII-A e Subjetivos: Fragmentos da minha alma.

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