Como disputas entre países afetam o preço do que você consome
Conflitos geopolíticos, disputas entre países e episódios de instabilidade militar não ficam restritos ao campo diplomático ou estratégico. Em um mundo marcado por cadeias globais de produção altamente integradas, esses eventos têm efeitos diretos sobre a economia mundial — e chegam rapidamente ao bolso do consumidor.
Segundo o professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Ahmed El Khatib, guerras e sanções funcionam como choques sistêmicos sobre a economia global. “Do ponto de vista econômico, conflitos geopolíticos geram choques negativos de oferta, elevando custos, reduzindo eficiência e pressionando preços em escala global”, explica.
O primeiro impacto costuma ocorrer sobre a oferta de insumos estratégicos, como petróleo, gás natural, grãos, fertilizantes e metais industriais. Regiões em conflito frequentemente concentram parte relevante da produção desses bens. Quando há risco de interrupção da produção, bloqueios logísticos ou restrições comerciais, o mercado antecipa a possibilidade de escassez. “O simples risco de desabastecimento já é suficiente para elevar os preços internacionais dessas commodities”, afirma El Khatib.
Esses efeitos são amplificados pelas cadeias globais de suprimentos. Em contextos de conflito internacional, aumentam os custos de frete e seguro, rotas logísticas são redirecionadas, empresas formam estoques precaucionais e determinados corredores comerciais perdem eficiência. “A economia global passa a operar com maior custo médio e menor previsibilidade, o que se reflete nos preços finais”, destaca o professor.
Como energia, combustíveis e alimentos são insumos básicos para praticamente todos os setores, o aumento de seus preços se espalha por toda a economia. “O choque deixa de ser setorial e se transforma em um processo inflacionário mais amplo, atingindo transporte, indústria, serviços e bens de consumo”, explica El Khatib.
A experiência recente reforça esse diagnóstico. A guerra entre Rússia e Ucrânia provocou fortes disrupções nos mercados de petróleo, gás natural, trigo, milho e fertilizantes, afetando países em todo o mundo. Já conflitos recorrentes no Oriente Médio historicamente elevam o prêmio de risco do petróleo. Além disso, tensões entre Estados Unidos e China têm impactado cadeias de tecnologia e semicondutores, com reflexos sobre preços e investimentos globais.
Outro canal importante é o financeiro. Em momentos de incerteza geopolítica, investidores tendem a buscar ativos considerados mais seguros, fortalecendo o dólar. “Esse movimento pressiona moedas de países emergentes, como o Brasil, encarecendo importações e reforçando a inflação doméstica”, afirma El Khatib. Como muitas commodities são cotadas em dólar, a combinação entre alta internacional e valorização cambial amplifica ainda mais o impacto sobre os preços internos.
Para as famílias, os efeitos são sentidos de forma concreta: aumento nos preços de alimentos, combustíveis e energia, encarecimento de eletrônicos e bens duráveis, além de pressão gradual sobre serviços e despesas fixas. “Mesmo países que não participam diretamente de conflitos acabam sentindo seus efeitos no custo de vida”, ressalta o professor.
Embora não seja possível eliminar completamente esse risco, algumas estratégias podem ajudar no planejamento financeiro. Entre elas estão a cautela com endividamento de longo prazo em períodos de instabilidade global, a manutenção de reservas de emergência, a diversificação patrimonial e o planejamento do consumo. “Em um mundo integrado, não existe mais conflito distante. Todo grande evento geopolítico acaba impactando inflação, câmbio e poder de compra”, conclui Ahmed El Khatib.
